Diário Do Povo - Edição Eletrônica
quarta-feira, 22 de maio de 2013
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26/2/2013 09:00:00 - Colunas  - Sebastião Nery

Um partido fascista




SÃO PAULO - Perto do Natal de 1980, toca o telefone:
- Onde vai passar as férias? Surgiu uma ótima oportunidade.
Era o Igor, adido de imprensa da Embaixada Soviética no Brasil e da agência de notícias "Tass". Em 1977, eu passara um mês viajando pela Ucrânia, Moldávia, Geórgia, Armênia, até o Mar Negro. Escrevi uma série de textos sobre aquele mítico, misterioso Ocidente soviético. Igor insistiu: 
- Agora você precisa conhecer nosso Oriente, a Sibéria, a partir dos Urais. Numa oportunidade lhe telefono. Você já está convidado.
O problema deles era arranjar um intérprete em línguas faladas pelo convidado e com tempo disponível. Estava em Moscou, de férias, um da agência "Novosti", que falava espanhol e francês. Eu podia viajar logo, janeiro e fevereiro. Mas desta vez sozinho, porque Sibéria é viagem longa.

Aeroflot
Topei. Aeroflot não tinha vôo saindo do Brasil. Pegava-se em Lima, no Peru. O DC-10 da Varig, superlotado, me deixou às duas da madrugada em Lima, nas vésperas do Réveillon de 1980. E logo uma voz conhecida:
- Nery, o que é que você está fazendo aqui?
Era Heckman, diretor da Varig no Peru, que há dois meses eu encontrara no aeroporto de Frankfurt, na Alemanha. Na Aeroflot, passagem reservada, tudo marcado e um funcionário soviético me pondo na primeira classe de um enorme Iliushin-62. O avião todo cheio lá atrás, e só eu, o único, na primeira, como um sheik árabe do petróleo.
Trazem-me um conhaque da Geórgia, daqueles que vi sendo fabricados lá. A comissária dá um aviso em russo. Palmas lã atrás e gente falando espanhol. Era meia dúzia de jornalistas do Peru, Colômbia, Bolívia, Equador, indo para um congresso de imprensa em Helsinque, na Finlândia. E o aviso era de um hospital de Lima, comunicando que acabava de nascer o primeiro filho do jornalista peruano Luís Casas, ali a bordo, viajando.
Fui lá, dei-lhe um abraço, pedi copos, convidei-os para a um vinho na primeira classe. E farreamos cinco horas seguidas, graças à conhecida gentileza dos russos, sempre exemplares. Vinho, jantar para todos os jornalistas, conhaque. Ninguém perguntou quem eu era e porque transferira um pedaço da segunda classe para a primeira. Até descermos em Cuba.

Cuba
Duas horas no chão, em Cuba, e de novo no céu com a Aeroflot. Mas antes de o avião levantar vôo em Havana, novamente eu só na primeira classe, chega um senhor moreno, alto e apressado, conferindo a passagem e falando espanhol. Era um cubano da Aeroflot em Cuba, vendo meu bilhete:
- Há um erro. Sua passagem é na segunda classe e está na primeira. 
- O chefe da Aeroflot em Lima é quem me pôs para viajar aqui.
- Mas não pode.
- Sinto muito, mas não é problema meu.
- É, sim. O senhor não vai poder continuar viajando aqui.
- Desculpe, mas não vou sair. Só com ordem do comandante do avião ou do chefe da Aeroflot de Lima, que me convidou.
O homem enorme levou um susto com minha resposta. Parou, olhou para mim com ódio e foi lá dentro da cabine. Voltou, desceu as escadas pisando forte e eu continuei no meu canto. Mais 9 horas até Dublin, na Irlanda, e os sul-americanos farreando socialistamente no céu dos russos, eu na primeira, eles na segunda, e os vinhos e conhaques entre as duas.
Moscou
Na Irlanda, mais duas horas no chão, o frio roendo os ossos. De Dublin, para Helsinque, na Finlândia, onde desceram os jornalistas. E eu em direção ao Pólo Norte, até Murmansk, península de Kola. De Murmansk, Moscou. Eu já não sabia por onde andava meu confuso-horário. Um sol forte, sobre as nuvens, iluminava o horizonte visivelmente curvo, lá em cima, e, de repente, a visão clara, real, inacreditável, da noite caminhando apressada sobre nuvens. O avião indo para um lado e a noite para o outro. 
E daí a pouco o meio-dia anoiteceu com lua e nuvens rosas, como nas histórias bonitas da infância. Engolido em fusos horários a cada instante renovados, o tempo enlouqueceu. Já era Moscou e já era meia-noite de novo. O aeroporto Cheremetievo, novo em folha, preparado para as Olimpíadas, dormindo sob a neve e, lá fora, 10 graus abaixo. E o hotel Rússia, na Praça Vermelha, em um jardim de papoulas, onde tantas tardes andei com a rosa púrpura do Cáucaso, a luminosa caucaseana Ludmila. 

Yoani
Em 60 anos de viagens aprendi que o mundo gosta dos jornalistas. O PT precisa ler no clássico "Le Mie Prigioni", do jornalista italiano Silvio Pellico, como Mussolini levou o Partido Socialista para o fascismo.
E é uma pena. O PT, que nasceu embalado em tantas esperanças, é cada dia mais um partido fascista. E isso precisa ser implacavelmente denunciado. O que o PT está fazendo com a brava jornalista cubana Yoani Sanchez é asqueroso. Mulher valente que há dez anos desafia uma ditadura. 




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