Celibato de batina manchada
(*) José Maria Vasconcelos

Aos 12 anos, meus pais internaram-me em seminário capuchinho, Mecejana, pertinho de Fortaleza. Eram comuns internatos, até final dos anos 60, destinados a educação de jovens leigos ou vocacionados à vida religiosa, em regime fechado. As familias orgulhavam-se dos filhos nessas entidades, onde só se admitiam adolescentes do mesmo sexo. Liberdade limitada e vigiada, os seminários de organizações católicas proibiam o contato com o mundo, nem permitiam "amizades particulares." Educação beirava o policialesco. A sociedade aprovava a disciplina do arrocho e não questionava as regras dos educadores, nas escolas públicas e particulares, especialmente do clero. Filhos, submissos, não ofereciam crédito. A verdade apoiava-se somente no lado autoritário.
No interior das clausuras e seminários, desenrolavam-se vícios e transgressões, de arrepiar anjos. Adolescentes, crepitando de sonhos amorosos, sem afeto feminino, sem aconchego familiar, implodiam, muitas vezes, no "pecado" da masturbação, e, arrependidos, constrangiam-se no confessionário. Eu sabia das intimidades entre alguns padres e seminaristas. Única reação, calar, devido à temida autoridade moral, às vezes, farisaica, dos mestres. A noção exagerada de pecado enchia-me de escrúpulos e medo de me contaminar. Nem durante curtas férias com minha família, caía na tentação feminina. Só depois dos 18 anos, já fora do seminário, acariciei uma garota. Parecia bode liberto do chiqueiro arfando inebriado pelo cio da cabra.
Dois anos em Guaramiranga, alto da Serra de Baturité. Mais dois em Parnaíba, no Convento S. Sebastião. Adolescência fumegante, o perfume emanado das garotas, nas missas dominicais, acendia-me o frenesi. Recolhia-me na solidão, sem entender por que a vocação sacerdotal ou pastoral é um dom gratuito de Deus, enquanto o celibato é rígida exigência do Vaticano. Se Jesus apenas convida ao celibato seus discípulos e não os obriga. Se a Igreja convivera com a liberação conjugal, durante todo o primeiro milênio. Só eu e minha geração caminharíamos pro inferno, por saborear tão abençoado fruto da criação? Então, acabe-se essa velhocracia romana. Estabeleça-se celibato livre, apesar das despesas provenientes. "Deus proverá."
Em Parnaíba, Dr. Mariano atendia, gratuitamente, padres e seminaristas do Convento de S. Sebastião. Diagnosticou-me os motivos das crises estomacais: "Vocês, em geral, tentam esconder, debaixo da batina, muita hipocrisia e recalques sexuais. Isto faz um mal danado." Logo tratei de arrumar as malas, no início do curso de Filosofia.
Escândalos pastorais e sacerdotais não me barram entrar na igreja. Escândalos sempre existiram, desde Pedro e Judas a solteiros, casados, pastores, padres e juízes. Afinal, o estardalhaço da imprensa sobre pedófilos atinge punhado de desequilibrados. Há milhares de padres, freiras e pastores engajados em imenso trabalho missionário no mundo. Basta enfileirar-se à Caminhada da Fraternidade, liderada pelo Pe. Tony, para deslumbrar-se com o tamanho da procissão e do sorriso dos assistidos. O resto é miséria de alguns que merecem misericórdia.

(*) José Maria Vasconcelos é cronista - josemaria001@hotmail.com

O poder público e o atendimento ao público
(*) Alcides Nascimento

Já se faziam mais de quinze anos que não ia a uma determinada secretaria de Estado para tratar de assuntos burocráticos. Na semana passada voltei àquela casa para dar entrada em processo solicitando informações sobre minha vida pregressa durante quinze anos. Logo ao chegar ao protocolo fui informado que o sistema estava fora do ar, e apesar de ter levado a documentação que julgava necessária, ela estava incompleta e precisava preencher um formulário de requerimento. Assim, considerei que a viagem tinha sido proveitosa. No dia seguinte, voltei ao protocolo e dei de cara com um aviso sistema inoperante. Quis saber de um funcionário se havia previsão para o sistema voltar a funcionar. A resposta foi "pode ser que amanhã, ele esteja consertado". Sai otimista. No terceiro dia, a plaquinha continuava de prontidão, mas desta feita fui orientado a subir a escada que leva ao primeiro andar e procurar o local onde funciona o NPD da casa e pressionar, a quem de direito, o conserto dos equipamentos avariados. Lembro bem da frase de um funcionário: "todos que estão vindo aqui estamos pedindo que subam lá." Não disse nada a ele, mas não fui pressionar ninguém. Pensado com os meus botões disse: "esta casa possui um secretário e é ele quem deve cuidar dela, afinal de contas o povo do Piauí tão lembrado nos discursos, paga o salário dele.
Ouvi também de outro funcionário que pessoas vindo do interior do Piauí estavam chegando para resolver problemas e voltando para casa, de mãos abanando. Sai da Secretaria e atravessei a Avenida Pedro Freitas para resolver outro problema em um anexo da Secretaria. Ali, a primeira informação que ouvi foi: a funcionária que cuida do assunto está de férias, mas vou chamar o fulano de tal. Enquanto esperava, ouvi uma piauiense dizendo "dei entrada na documentação, como orientado, minha vinda foi agendada para hoje, moro em Redenção do Gurguéia, chegando aqui me informaram que meu processo desapareceu". Continuou aquela brasileirinha "tudo isso depois de vinte e sete anos de serviços prestados."
Fatalmente um burocrata daqueles acostumados a dar desculpas esfarrapadas, vai dizer "acidentes acontecem" ou "nada que eu possa dizer vai justificar" como se dissesse "não tenho culpa". O pior de tudo isso é que, apesar do instrumental jurídico e das facilidades eletrônicas que podem ajudar a esses brasileiros que pagam os salários daqueles que, em tese, deveriam recebê-los de forma educada, cuidando para que fossem atendidos com presteza, desconhecem os caminhos a serem percorridos ou na pior hipótese, temem represálias porque alguns servidores que ocupam cargos de mando agem com se a instituição fosse propriedade deles, desenvolvem práticas assemelhadas aquelas dos coronéis da República Velha, grandes proprietários rurais onde o morador não podia pisar fora da linha, era punido com a expulsão da terra, a casa era queimada e podia ser surrado. As práticas são outras, é verdade, mas a intenção é a mesma, punir quem desobedece as regras.
Por fim, se o Piauí está sendo mesmo preparado para sair do subdesenvolvimento em vinte anos, como disse um secretário, então um sistema de computação de uma das maiores secretarias de Estado, não pode passar três dias "fora do ar" provocando vexames em pessoas do povo, repito, tão lembrado nos discursos vazios dos políticos profissionais, pessoas que se deslocaram de cidades distantes da capital para resolver problemas que só podem ser resolvidos em Teresina e naquela pasta. Com a palavra, os administradores do Piauí.

(*) Alcides Nascimento é historiador e professor da Ufpi.