MP
recebeu 80 denúncias de torturas da Polícia em 2006
A
tortura policial, um crime que se imaginava estar sendo banida dos
órgãos de Segurança Pública do Piauí,
infelizmente está mais viva do que nunca. Só no ano
passado foram registrados mais de 80 casos deste tipo de delito
praticados dentro das delegacias do Estado e em muitos casos, contra
adolescentes. A situação é tão grave
que foi motivo na semana passada de uma reunião com todos
os delegados de Teresina e uma representante do Ministério
Público.
Todos os casos serão encaminhados ainda nesta semana ao delegado
Geral de Polícia Civil do Piauí, Laércio Eulálio
pela promotora Vera Lúcia Santos, do Centro de Apoio Operacional
de Defesa da Cidadania e Proteção ao Patrimônio,
do Ministério Público Estadual.
A promotora afirma que 30 destes casos chegaram até as suas
mãos através da Comissão de Defesa dos Direitos
Humanos, órgão da Ordem dos Advogados do Brasil(OAB-PI).
Outros vinte casos o MP já tinham recebido diretamente das
vítimas e outros 30 casos estão registrados na 2ª
Vara da Infância e Adolescência de Teresina onde Vera
Lúcia é a titular.
Segundo a representante do Ministério Público em muitos
dos casos, onde há policiais inclusive indiciados, os acusados
são reincidentes e continuam tranquilamente trabalhando no
aparelho policial, onde podem voltar a cometer o delito.
Muitos destes policiais usam a velha tática de primeiro bater
para depois perguntar e o caso se agrava quando as vítimas
são adolescentes e já conhecidas dos policiais que
sempre que aparece alguma denúncia vão atrás
destes potenciais acusados e praticam a tortura quando muitas vezes
não forem nem estas pessoas que cometeram os delitos.
A promotora afirmou que tomou a iniciativa de solicitar a reunião
com os policiais para que seja feita uma parceria com o objetivo
de acabar com estes abusos.
Na reunião a representante do Ministério Público
lembra que os delegados não gostaram do encontro, mesmo após
ela dizer que em muitos casos as torturas são praticadas
quando os delegados não estão nas delegacias.
Mas, segundo a promotora, ela também falou do quão
esta prática de tortura é abominável, crime
que segundo ela, muitas pessoas imaginavam ter desaparecido com
o fim da Ditadura Militar quando este delito era usado largamente
nos porões das delegacias.
Apesar de reconhecer que a maioria dos casos acontece na calada
da noite nas delegacias ou fora delas quando as vítimas são
retiradas sorrateiramente, a promotora de Justiça reconhece
que a prática de tortura não é apenas da Polícia
Civil e que muitos militares também usam este tipo de crime
e por este motivo será marcada uma reunião com os
policiais militares ainda esta semana.No caso da PM a tortura acontece
minutos depois da abordagem.
O delegado Geral disse no dia da reunião em entrevista a
uma emissora de TV que a Polícia Civil do Estado não
apóia a tortura e que vai tomar todas as providencias para
evitar que isto volte a acontecer, mas lembrou também que
deve ser observada a diferença entre a tortura propriamente
dita e ação dos policiais durante as abordagens quando
os acusados reagem as prisões.
Torturadores
descobrem novos métodos
A promotora Vera Lúcia Santos informou ontem que as denúncias
de torturas recebidas relatam velhos e novos métodos de espancamento
de presos, principalmente com os objetivos de arrancar confisões.
O velho e conhecido “Pau-de-arara” que é o tipo
de tortura usado quando um detento é colocado pendurado com
as pernas presas em uma vara de pau, é uma das mais usadas
ainda no Piauí. Com este meio os detentos acabam doentes
pois ficam várias horas na mesma posição como
se fosse um animal.
Além deste tipo, outro bastante conhecido é o que
coloca a cabeça da vítima dentro de um saco plástico
e ficam espancando o preso. A vítima muitas vezes termina
morrendo porque com as pancadas aumenta o ritimo cardíaco
e a necessidade se respirar mais e mais. Só que o ar é
pouco porque o saco está com a boca amarrada.
Muitos dos torturadores tratam este método como o “Doutor
Carvalho”, numa alusão a uma rede de supermercados
da Capital porque muitas vezes a tortura é pratica com sacolas
desta rede que fornece inocentemente aos seus clientes, sem saber
que muitas delas serão usadas para fins nada nobres.
Também existem outros tipos, como o espancamento puro em
simples além da velha e conhecida palmatória. Umbigo
de boi, pedaços de ferro, dentre outros, também são
muitos usados.
Em muitos casos os torturadores até colocam nomes nos objetos
para intiminar ainda mais.
Mas, o Ministério Público descobriu que os torturadores
estão se aperfeiçoando e buscando novos métodos
de cometer os delitos sem deixar marcas ou outro vestígio
que venham a incriminá-los futuramente. Usar uma toalha molhada
por exemplo, é um meio de não deixar hematomas no
corpo da vítima. Neste caso, quando denunciado, o acusado
se safa afirmando que é a palavra dele contra a da vítima
porque não há prova do crime.(OP)
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