Saúde
(*)Demóstenes Ribeiro é professor de Educação Física - CREF/PI 00029

O risco cardíado de musculação é baixo

 

O fato bem conhecido de que a musculação pode induzir grande aumento de pressão arterial, e a imagem de um levantador de peso realizando uma prova com carga máxima, talvez explique o conceito que muitos profissionais de saúde ainda têm no sentido de que a musculação seria uma atividade de alto risco cardiovascular. No entanto, a baixa incidência de acidentes cardiovasculares na musculação, e o melhor conhecimento da fisiologia desta modalidade vieram trazer mais tranqüilidade para os profissionais atualizados.
Nos exercícios aeróbios, a freqüência cardíaca e a pressão arterial aumentam paralelamente com a intensidade do esforço, justificando a indicação dessa forma de atividade física em intensidade baixa para pessoas debilitadas ou sedentárias. Como os exercícios contínuos em intensidades baixas ocorrem em metabolismo aeróbio, criou-se a hábito de afirmar que os exercícios aeróbios são os mais seguros. Todavia, esta afirmação não vale para os exercícios interrompidos como a musculação. Neste tipo de atividade, o caráter localizado da contração muscular determina intensidades relativamente altas de esforço com metabolismo energético predominante anaeróbio, mas com demanda cardiovascular geralmente discreta. A pressão arterial sobe sempre um pouco mais do que nos exercícios contínuos, mas geralmente dentro dos limites de tolerância. Apenas com a ocorrência de cargas máximas que levem à apnéia (respiração bloqueada) e isometria (sustentação do peso sem movimento), ocorrem grandes aumentos de pressão arterial. Normalmente os exercícios com pesos para não atletas são realizados de maneira isotônica, sem apnéia importante e interrompidos antes da isometria. Por outro lado, as repetições baixas que normalmente são utilizadas no treinamento com pesos produzem discretas aumento de freqüência cardíaca. Além disto, os intervalos para descanso muscular entre as séries fazem com que a freqüência cardíaca volte quase aos níveis de repouso antes de novo esforço.
Em resumo, a musculação para não atletas produz aumento um pouco maior da pressão arterial em relação aos exercícios contínuos, mas um aumento de freqüência cardíaca muito menor. Assim sendo, o Duplo-Produto dos exercícios com pesos costuma ser baixo, já tendo sido demonstrado que caminhar rápido em plano levemente inclinado produz maior sobrecarga cardiovascular do que o treinamento com pesos utilizando 80 % de carga máxima.
Um erro freqüente é imaginar que pesos leves são mais seguros. Com pesos mais leves se fazem mais repetições, o que aumenta a freqüência cardíaca e a pressão arterial, e além disto se ao final da série ocorrer isometria e apnéia, a pressão arterial aumentará mais do aumentaria com mais peso e menos repetições. Em todo o mundo, a maioria dos pesquisadores que estudam os efeitos dos exercícios com pesos em pessoas maduras estão utilizando cerca de 80 % de carga máxima, para repetições entre seis e oito, evidentemente sem isometria e sem apnéia. Apenas para referência, útil para pessoas que não têm familiaridade com o treinamento com pesos, este nível de carga no exercício de "leg press" pode significar cerca de 50 quilos para pessoas idosas.
Numerosos trabalhos têm documentado a segurança músculo-esquelética e cardiovascular do treinamento com pesos não apenas para pessoas sadias mas também para pessoas debilitadas e que apresentam doenças. Esses conhecimentos associados aos importantes efeitos da musculação no aumento de massa óssea, aumento da massa muscular e aumento da mobilidade articular, têm levado à utilização cada vez maior desses exercícios em programas de reabilitação de grupos especiais.

DEMÓSTENES RIBEIRO CREF/PI 00029