O pseudônimo da dívida
RIO - No botequim de uma cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul, depois do golpe de 1964, um grupo conversava sobre política:
- Vocês ficavam dizendo que os militares fizeram uma injustiça com o Brizola, perseguindo-o e expulsando-o do país porque era comunista.
- Comunista? Brizola nunca foi comunista, era um nacionalista.
- Era um comunista disfarçado. Tanto que foi para Moscou e está lá.
- Nada disso. Brizola foi para o Uruguai. Já está asilado lá.
- No Uruguai coisa nenhuma. Está em Moscou. Leiam aqui no jornal de hoje : - "Leonid Brejnev, em Moscou, disse ontem"...
- E o que é que tem o Leonid Brejnev, secretario-geral do Partido Comunista e chefe do governo da União Soviética, com Leonel Brizola?
- Então não percebem o pseudônimo?Leonid Brejnev,Leonel Brizola.

IPEA
O IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), do ministério do Planejamento, com sua autoridade, desmascara toda essa conversa fiada do governo de que acabou com a Dívida Externa, agora reduzida a 190 milhões de dólares e está até "emprestando dinheiro ao FMI".É uma lulada.
O que o governo fez foi uma enganação. Trocou o nome por um pseudônimo. O que era Dívida Externa agora é Divida Interna, só para os banqueiros e especuladores ganharem mais. A Dívida Externa tinha taxas de juros muito menores, juros internacionais, e prazos maiores. A Dívida Interna é pela SELIC, a agiotagem fixada pelo Banco Central. Os juros externos não passam de 3%.Os internos, o BC não deixa por menos de 8%.

Divida
No "Comunicado nº 14" do IPEA estão os números todos:
1. - Segundo o próprio Tesouro Nacional, a Divida Interna (só a Diívida Pública Federal), já passou de 1 trilhão e 600 bilhões de reais. Isso significa que saltou de 38,5% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2008 para 43% em 2009. E continua subindo. A quanto chegará no fim de 2010?
Os gastos do Brasil com juros, saúde, educação e investimentos, de 2000 a 2007 (2 anos de Fernando Henrique e 5 de Lula) são esquizofrênicos. Só de juros, o Brasil gastou 1 trilhão e 267 bilhões. E com a Saúde, 310 bilhões. Educação, 149 bilhões. Investimentos, 93 bilhões.
Diz o IPEA: - "Ademais de poder ser considerado um gasto improdutivo, pois não gera emprego e tampouco contribui para ampliar o rendimento dos trabalhadores, (esse brutal pagamento de juros) termina fundamentalmente favorecendo a apropriação da renda nacional pelos detentores de renda de títulos financeiros".

Banco central
2. - Mas a Divida Interna não se expressa unicamente através da Dívida Pública Federal. A divida do setor publico inclui as tres esferas de poder (federal, estadual e municipal) e já ultrapassa 2 trilhões de reais.
E não é só. Paralelamente, em verdadeiro túnel subterrâneo, o Banco Central vem operando o que chama de "estoque de operações compromissadas", com prazo máximo de 45 dias a 6 meses, "não contabilizadas" pelo Tesouro Nacional, como a Caixa Preta do PT.
É uma dívida pública paralela destinada a oferecer títulos ao mercado para enxugar a liquidez. Os principais clientes são os Fundos de Investimento (70%), os bancos (20%) e grandes empresas (10%). Em outubro de 2009, essas operações chegaram a 500 bilhões de reais.
Tudo isso atinge a fantástica soma de 2 trilhões e 500 bilhões de reais.

Reservas
3. - E a orgia não pára no Banco Central, que emite títulos nacionais para comprar dólares. Por isso as reservas internacionais do país estão em 231,5 bilhões de dólares, a quase totalidade em títulos do Tesouro dos Estados Unidos, cujos rendimentos estão em queda contínua. E pelos títulos nacionais o Banco Central paga quase 10% de juros.
O vice-presidente do Banco Mundial, Otaviano Canuto, diz que o Brasil gasta 800 milhões de dólares por mês para manutenção dessas reservas, algo próximo de 10 bilhões de dólares por ano. Nos últimos anos, o dólar perdeu 41% de seu valor. Atrás dele foram nossas reservas.

Deficit
4. - E mais números ruins. Em 2009, no total de exportações e importações, o Brasil teve na balança comercial um superávit de 25,3 bilhões de dólares. No mesmo período, a "remessa de lucros e dividendos" das empresas estrangeiras foi de 25,2 bilhões de dólares.Anulou o superavit
Para 2010, o Banco Central calcula o saldo da balança comercial em 15 bilhões de dólares e as remessas de lucros e dividendos em 30,2 bilhões de dólares. Em 2009, o déficit do Brasil em transações correntes foi de 24,3 bilhões de dólares. O Banco Central projeta para 2010 um déficit de 40 bilhões de dólares. Podendo o déficit chegar a 55 bilhões em 2011.

Desequilíbrio
5. - Paulo Nogueira Batista Jr, diretor executivo do FMI, prevê um "desequilíbrio externo em conta corrente" de 60 bilhões de dólares em 2010. O Itaú-Unibanco espera os mesmos 60 bilhões de dólares de "desequilíbrio externo em conta corrente" em 2010. E 83 bilhões em 2011.
Reinaldo Gonçalves, professor da UFRJ, está pessimista:
- "A economia está muito vulnerável. O país continua patinando".
E Antônio Correa de Lacerda, da PUC de São Paulo:
- "A situação é ruim, pela rapidez da deterioração".