Salvo pela língua
RIO - Entre 96 e 97, vi a Colômbia sacudida por enorme escândalo, patrocinado pelo embaixador norte-americano Myles Frechette e Andrés Pastrana, candidato derrotado do Partido Conservador à presidência da República, em que o então presidente Er-nesto Samper, do Partido Liberal, era acusado de haver recebido dinheiro do narcotráfico. Jamais provado.
Era o "Processo 8000", onde um demagogo de ar honrado, Alfonso Valdivieso, fiscal-geral da República, virou candidato com um escândalo por dia contra Sam-per. Amigos de infância, íntimos, Valdivieso, usado pela mídia, resolveu romper com Samper e derrubá-lo para ser o presidente. Começou em primeiro nas pesquisas, acabou em quarto, desmoralizado.

Colômbia
Samper se salvou saindo para a briga. Com oratória fria e forte, defendeu sua honra e seu governo. Não deixava nada sem resposta. Chamava a imprensa e batia. Punha o dedo nas feridas dos donos da grande mídia e seus jornalistas.Intimaram a primeira-dama para depor aos "fiscais sem rosto": procuradores escondidos atrás de um vidro, inquirindo os depoentes sozinhos numa saleta, sentados numa cadeira dura,diante dasTVs:
- "Se quiserem, eu vou, disse Samper na TV. Minha mulher, nunca! Abriram a porta de minha casa.Vou resolver isso com vocês como homem"!
Foi um sucesso. De bandido passou a herói. Derrotou os inimigos.
Passado o vendaval, Daniel Samper, irmão dele, intelectual consagrado, disse ao brilhante publicitário Ruy Nogueira, que encontrei lá trabalhando:
- Quem salvou o Ernesto foi sua língua!
Ou os delegados Paulo Lacerda e Protógenes Queiroz usam a língua e contam tudo ou serão triturados pela maquina de poder de Daniel Dantas.

Cuba
Alguma coisa acontece, como diria o Caetano Velo-so, no coração de Cuba. Pela primeira vez um intelectual cubano dá uma entrevista forte fora do país, com duras críticas, sem medo de ser preso ao voltar.
O cineasta Tomás Piard, 60 anos, que vive em Cuba, acaba de lançar lá seu último filme ("El Viaje-ro Inmovil"), sobre a vida de Lezama Lima, o mais importante romancista da ilha no século passado, que sempre viveu lá, autor do clássico "Paradiso", de 1966. Na semana passada o Instituto Cubano de Arte e Industria Cinematográfica (Icaic), do governo cubano, criado por Garcia Márquez, patrocinou o lançamento do filme em Londres.
Malu Delgado fez em Londres longa entrevista com Tomás Piard para o excelente caderno de cultura "Mais!", da "Folha" (domingo, 16). A esquerda histérica, que já foi histórica, leia essas coisas fundamentais:

Fidel
1. - "Ao longo de todos esses anos, Cuba criou um espírito de "não opinião". Ninguem quer pensar, porque isso pode prejudica-lo. Fidel pensa por todos nós. Creio que Fidel pense com a melhor intenção para o povo, mas cometeu muitos erros econômicos e destruiu a economia de Cuba".
2. - "Sinto muita dor (com o atual momento de Cuba). Eu me recordo dos meus pais que, como toda uma geração, deram o melhor de sua vida pelo triunfo da revolução, para que a vida do povo cubano melhorasse. E o que aconteceu depois? Vivemos hoje na maior miséria que se pode imaginar. Criou-se a idéia de que vivemos o melhor dos mundos em Cuba".
3. - "Não é assim. E as melhores coisas que tivemos na revolução, que são a educação e a saúde, estão destruídas. Esses eram os dois pilares da revolução. Hoje, alem de todos os desastres, isso também está arrasado".

TV
4.- "Os professores não ganham quase nenhum dinheiro,não se sentem estimulados. Os médicos estão deixando Cuba. Também ganham muito mal e percebem que podem trabalhar na Venezuela ou em qualquer outro lugar e a vida deles melhora. Em Cuba, então, não temos mais médicos".
5. - "Me emocionei muito com a vitória de Obama. E me emocionei sobretudo por poder tê-la visto fora de Cuba (já estava em Londres, para lançar seu filme), porque lá os meios de comunicação manipulam tudo".
6. - "Cuba não tem dinheiro para comprar filmes. São todos em DVD. Na TV, às quartas-feiras, passam filmes latino-americanos. A televisão de Cuba é norte-americana, porque o resto da programação da TV é norte-americana. É um paradoxo, mas fazemos isso porque não temos produção nacional suficiente para preencher o espaço da programação".
7. "É contraditório, porque os jovens "revolucionários" estão vendo os filmes norte-americanos. Assistem também a "Lost", "House", "CSI", os seriados recentes. As produções norteamericanas são todas DVDs piratas".

Raul
8. - "Fidel não é o presidente, mas está presidente. Há coisas que Raul Castro tenta fazer para mudar a situação de Cuba, mas Fidel, que publica diariamente suas reflexões, às vezes o contradiz. O país foi vítima de dois furacões. Está arrasado, destruído. Casas, indústrias e escolas foram destruídas. E Cuba não tem uma economia sólida. Não há produção".
9. - "Nós nos acostumamos a ter o Estado nos provendo e, por isso, perdemos o espírito do que é o trabalho. E só o trabalho pode criar riquezas. Há um confronto. Parte quer que se mantenha o espírito da revolução. Mas as novas gerações não têm nenhum compromisso com a realidade histórica que se passou há 50 anos. Os jovens pensam diferente".
A morte de Fidel pode ser a"Crônica de Uma (dupla)Morte Anunciada".
A dele e a de Cuba.Entre Havana e Miami,o belo Caribe pode virar Congo
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